Um filme sobre a Austrália feito por australianos mas para o público em geral. Tem que se tomar muito cuidado para não parecer um filme do Ministério do Turismo ou então ser um filme que quem não for australiano vai ficar boiando. Esse filme quase foi pelo primeiro caminho.
Com quase três horas de duração (165 minutos), chega até a ter uma pausa de 10 minutos para o banheiro. Essa pausa divide o filme claramente em duas partes; a introdução de personagens estereotipados onde, por exemplo, o personagem de Hugh Jackman sequer tem nome! É chamado de Drover (traduzindo livremente, tocador de boiada) o filme inteiro, mesmo depois que Lady Ashley (Nicole Kidman) já é bem, digamos assim, íntima dele.
O filme começa com uma narração em off de Nullah, uma criança mestiça de aproxidamente 12 anos, filho de mãe aborígene e pai branco, que renega o filho. Como mestiço, ele deve ser levado para uma missão católica onde deverá ser reeducado para “tirar a negritude dele” e assim ser treinado para servir. Nullah vive na fazenda de gado do marido de Lady Ashley (Kidman) que aborrecida pela demora do marido em voltar para Inglaterra, resolve ir até essa terra “perdida” para ver o que está acontecendo.
Chegando lá, é escoltada por Drover (Hugh Jackman), um cowboy especializado em tocar boiada e essencialmente freelancer. Acontece que o marido de Lady Ashley é assassinado e ela resolve então assumir o rancho e tocar sua boiada até a costa, onde será embarcada para surprir o exército com carne, já que a guerra está começando (1939 é o ano em que o filme começa). Aconece que King Carney, grande pecuarista australiano, não quer que isso aconteça pois quer comprar o rancho de Ashley e fará de tudo para impedí-la de chegar.
Qualquer semelhança com o … E o Vento Levou é a mais pura verdade. Baz Luhrmann fez mundos e fundos para que esse filme saísse do papel. Produziu, escreveu e dirigiu este filme sempre com a idéia que fosse o épico definitivo de seu país. Utilizou fórmulas do clássico de 1939 como o choque de classes dos protagonistas, uma questão racial por trás e até uma guerra de pano de fundo. Sem falar é claro nas cenas grandiosas e trilha sonora de épico.
Se a primeira parte do filme se perde no “lugar comum” apresentando os personagens e chegando a ser um pouco cansativa, a 2a parte do filme é bem mais interessante, mostrando a mudança do personagem de Kidman da frívola aristocrata britânica para uma “mãe” preocupada com seu filho ao mesmo tempo com as pessoas ao seu redor. O ritmo do filme também acelera um pouco, deixando de lado a preocupação constante de grandiosas imagens das paisagens australianas (fique calmo, ainda tem na 2a parte mas pelo menos não é mais o tema central) e a trama se torna mais densa. O grande deslize do filme é a maneira com que trata a discriminação racial que os aborígenes sofreram. Ao mesmo tempo que critica veemente através dos personagens de Kidman e Jackman a discriminação que humilha os aborígenes, deixa a entender que eles têm poderes mágicos, podendo se tornar invisíveis ou estar presentes em todos os lugares. Oras, isso não deixa de ser uma forma de discriminação, tentando agora colocá-los acima de todos nós. Por que não ser apenas iguais, com cultura diferente? Isso é uma falha pois em certos momentos do filme, se tais “poderes” existem, eles bem que poderiam ter sido usados para poupar vários sofrimentos.
Luhrmann não poupa na cinematografia que realmente é maravilhosa. Ao mesmo tempo, mostra toda sua habilidade em close ups com uma das mais belas e sensuais cenas de beijos que já vi. A dedicação de Kidman ao projeto também é clara. Ela foi a responsável por Jackman participar deste filme, e aceitou participar do filme sem sequer ler o script. Todo o elenco está ótimo, inclusive o estreante Brandon Walters, como o “protagonista” do filme.
Talvez não tenha o impacto que … E o Vento Levou teve para o cinema mas é um épico que emociona e agrada, se você conseguir não ficar aborrecido com a primeira parte.